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Opinião

Três mortos em 30 dias: A Jacomel que mata e o silêncio de quem deveria proteger.

Enquanto jovens perdem a vida num trecho sem monitoramento à saída de Piraquara, o Estado omite-se e o município assiste de braços cruzados.

Foto Rubens Nascimento
Rubens Nascimento
Sergio Moro e Flavio Bolsonaro Juntos
Trecho ASPP · Piraquara/PR · Rodovia PR-415 · DER/PR (Foto: Jaelson Lucas/ANPR)

3 vidas ceifadas em menos de 40 dias no mesmo trecho da Rodovia João Leopoldo Jacomel, em Piraquara — sem câmera, sem radar, sem qualquer intervenção efetiva das autoridades responsáveis.

Não é tragédia. Tragédia é imprevisível. O que acontece na Rodovia João Leopoldo Jacomel, no trecho em frente à ASPP, saída de Piraquara, é resultado de omissão sistemática, negligência documentada e um silêncio institucional que já tem endereço e tem nome.

Em menos de quarenta dias, três jovens morreram no mesmo ponto de uma rodovia estadual que atravessa um dos municípios mais populosos da Região Metropolitana de Curitiba. Três vidas. Três famílias destruídas. Três mortes que não precisavam ter acontecido — e não teriam acontecido, se os responsáveis pela segurança desse trecho tivessem feito minimamente o seu trabalho.

Os nomes precisam ser ditos. Não para transformar vítimas em estatística, mas porque cada nome é uma acusação em forma de luto.

Eloiza Francieli Neris Silva, 21 anos

21 de fevereiro de 2026

Garupa de uma motocicleta. A moto perdeu o controle em uma curva da Jacomel e Eloiza morreu no local. Era mãe de um menino de 4 anos. Apaixonada por motos, compartilhava sua vida nas redes. Não chegou a ver o filho crescer.

Nycollas Kotlevski Kessler, 17 anos

8 de março de 2026

Estava indo buscar um presente de Dia das Mulheres para a mãe quando bateu na traseira de um carro na Jacomel. Foi entubado na ambulância, levado de helicóptero ao Hospital do Trabalhador. Morreu no mesmo dia. A mãe, que ele foi presentear, ficou sem filho.

Kayane Telles Moreira, 20 anos

28 de março de 2026

Atingida por um caminhão que fazia retorno em frente à ASPP para acessar o Contorno Leste. Arremessada da moto, bateu a cabeça na grade de proteção. O helicóptero de resgate não tinha onde pousar. Foi levada de ambulância até o ponto de embarque. Não resistiu. Era faixa azul no jiu-jitsu, com uma vida inteira pela frente.

O helicóptero de resgate não tinha onde pousar. Mas o Estado tinha anos para agir — e não agiu.

Se os três casos deste ano ainda não bastam para envergonhar quem tem obrigação de agir, o histórico recente deveria. A Rodovia João Leopoldo Jacomel acumula acidentes graves há anos, com um padrão assustadoramente repetido: retornos perigosos, alta velocidade, ausência de monitoramento e vítimas fatais predominantemente jovens e motociclistas.

Dezembro/2025

Motociclista de 21 anos morre na Jacomel após colidir com ônibus e ser atropelado por carreta que seguia logo atrás. A carreta não parou. A investigação concluiu que o caminhoneiro provavelmente nem percebeu que havia passado por cima de alguém.

Setembro/2024

Motorista perde o controle do carro e vai parar contra a passarela de pedestres na Jacomel, em Piraquara. Terceiro ferido na rodovia naquele mês.

Abril/2024

Motorista tenta acessar retorno, é atingido por caminhão e fica preso nas ferragens com suspeita de fratura na coluna torácica. O congestionamento atingiu quatro quilômetros. O tenente do Siate registrou que "cautela redobrada é sempre necessária" — como se o problema fosse o motorista, e não a via.

Novembro/2019

Acidente com vítimas no trecho Guarituba/Jardim Holandês da Jacomel. Na mesma época, o Diário de Piraquara já registrava o padrão de violência da rodovia — e levantava dúvidas sobre a omissão do poder público.

Outubro/2019

Reportagem do portal RIC apurou com a Polícia Militar que, somente de janeiro até outubro daquele ano, já haviam sido registrados dezenas de acidentes na Jacomel em Piraquara. Sete anos depois, o número continua crescendo.

Não é uma via com má sorte. É uma via sem gestão. A responsabilidade é do Estado — mas o silêncio é de todos.

Quem cuida da Jacomel?

É ao Estado que compete a instalação de câmeras, radares, sinalização adequada, fiscalização de retornos perigosos e intervenções físicas na via.

O DER/PR, até a data desta publicação, não instalou câmeras de monitoramento no trecho em frente à ASPP, não bloqueou o retorno que já matou ao menos uma pessoa em 2026, e não emitiu qualquer nota pública sobre os três óbitos consecutivos registrados neste ano.

Em 2019, a própria Prefeitura de Piraquara admitiu que instalou lombadas emergenciais na Jacomel por pressão popular — usando a justificativa de que "as obras de ampliação inviabilizavam intervenção maior". Anos depois, a desculpa mudou de nome. O resultado permanece o mesmo: mortes.

Mas seria injusto — e intelectualmente desonesto — limitar a crítica apenas ao Estado do Paraná. Porque há uma outra omissão, mais discreta, mais confortável e, talvez por isso, mais irritante: a da Prefeitura Municipal de Piraquara.

A rodovia é estadual, sim. Mas os mortos são munícipes. São filhos, mães, adolescentes que saíam para comprar presente e não voltaram. E o prefeito de Piraquara, diante de três mortes em menos de quarenta dias no mesmo trecho, permanece em silêncio administrativo. Não há registro de ofício formal ao DER/PR exigindo monitoramento. Não há nota pública de cobrança ao governo estadual. Não há convocação de reunião de urgência com a Polícia Rodoviária Estadual. Não há nada.

"A rodovia é do Estado" é a resposta fácil. Mas quem representa os mortos nessa briga institucional?

A gestão municipal tem instrumentos. Tem o direito e o dever de acionar formalmente o DER/PR, de acionar o Ministério Público, de levar o caso à Assembleia Legislativa, de fazer barulho. Prefeituras menores que Piraquara já fizeram isso — e conseguiram resultados. O problema não é falta de poder. É falta de vontade.

As soluções não são complexas. São baratas, técnicas e conhecidas. O que falta não é orçamento. É decisão política.

O DER/PR precisa, com urgência, instalar câmeras de monitoramento no trecho em frente à ASPP, revisar a sinalização e aumentar a fiscalização eletrônica de velocidade. São medidas que custam menos do que um único processo judicial de indenização — e que salvam vidas reais.

A Prefeitura de Piraquara precisa sair do papel de espectadora. Seus munícipes estão morrendo. Isso é suficiente para que qualquer gestor público comprometido com o seu mandato faça alguma coisa além de postar condolências nas redes sociais.

Até quando?

A pergunta não é retórica. É a mesma que os familiares das três vítimas estão fazendo agora, enquanto constroem seus lutos. É a mesma que os moradores de Piraquara que usam a Jacomel todos os dias fazem toda vez que passam por aquele retorno em frente à ASPP e pensam: será que hoje não é o meu dia?

Se essa sequência não é suficiente para que o DER/PR e a Prefeitura de Piraquara se movam, é legítimo perguntar: qual é o número? Quatro? Cinco? Dez? Qual é a quantidade de caixões necessária para que alguém, finalmente, tome uma decisão?

Eloiza, Nycollas e Kayane mereciam mais do que condolências. Mereciam uma rodovia que não matasse. E os que ainda vêm pela Jacomel todos os dias merecem saber que, desta vez, os responsáveis vão agir — antes do próximo acidente, e não depois.